8º Encontro de Resseguro destaca que setor precisa ampliar capacidade de integração internacional para lidar com riscos climáticos cada vez maiores
O setor de seguros e resseguros ganha ainda mais protagonismo no contexto de eventos climáticos extremos. Para a presidente da Federação Nacional das Empresas de Resseguros (Fenaber), Rafaela Barreda, o setor vive “uma nova fase”, em que seguro e resseguro passam a exercer um papel cada vez mais central na economia brasileira, aproximando o Brasil das práticas já consolidadas em mercados internacionais maduros.
É notório que, em um ambiente marcado por eventos climáticos extremos, ataques cibernéticos sem precedentes e tensões geopolíticas que afetam a economia global, a absorção e o compartilhamento de riscos tornam-se fundamentais para preservar investimentos, cadeias produtivas e a própria estabilidade social. É o que ressalta a realização do 8º Encontro de Resseguro, que é realizado pela Fenaber em parceria com a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), durante dois dias no Rio de Janeiro.
Ela reforçou que o encontro acontece “no lugar certo e na hora exata”, justamente quando o mercado precisa discutir soluções capazes de responder à velocidade das mudanças e à volatilidade do cenário internacional.
Ao contextualizar os desafios contemporâneos, a presidente da Fenaber afirmou que “o resseguro é a engrenagem silenciosa da resiliência”, ressaltando a capacidade do setor de sustentar economias e empresas diante de cenários de instabilidade crescente.
Nesse sentido, acrescentou que a programação do encontro mapeia as responsabilidades do setor frente às transformações econômicas e sociais em curso. “Sem resseguro, não há ponte que se erga, não há safra que se garanta, não há investimento que se sustente”, afirmou Rafaela.
O presidente da CNseg, Dyogo Oliveira, defendeu maior integração entre os mercados de seguros e resseguros como estratégia essencial para ampliar a proteção da economia brasileira diante de um cenário global mais complexo, marcado pelo avanço das mudanças climáticas, pela transformação digital e pela necessidade de expansão da cobertura securitária no país.
Oliveira afirmou que seguros e resseguros são “atividades indissociáveis” e que o fortalecimento institucional entre seguradoras, resseguradoras e reguladores será decisivo para enfrentar os novos desafios econômicos e sociais. “O mundo não vai se adaptar a nós. Nós é que teremos de nos adaptar a um ambiente cada vez mais complexo, mais desafiador e mais imprevisível”, afirmou.
Segundo o presidente da CNseg, o setor precisará ampliar sua capacidade de integração internacional para lidar com riscos climáticos cada vez maiores. Ele destacou que eventos extremos, enchentes urbanas e perdas no agronegócio devem pressionar fortemente o mercado nos próximos anos, especialmente nas áreas de seguro agrícola e rural.
“O clima impõe riscos de escala global e isso exigirá soluções globais. Precisaremos ampliar nossa capacidade de redistribuição internacional de riscos para absorver impactos que serão cada vez mais frequentes e severos”, disse.
Em sua visão, o recado é claro: com fundamentos sólidos e crescente integração internacional, o setor de resseguros no Brasil se posiciona como peça-chave no desenvolvimento sustentável da indústria de seguros e na proteção da sociedade frente a riscos cada vez mais complexos.
Já o superintendente da Superintendência de Seguros Privados (Susep), Alessandro Octaviani, defendeu uma visão estratégica do mercado de seguros e resseguros como instrumento de desenvolvimento nacional, destacando que o fortalecimento do setor será decisivo para ampliar a capacidade de investimento, enfrentar os impactos das mudanças climáticas e elevar a resiliência da economia brasileira.
Durante encontro do setor ressegurador, Octaviani afirmou que seguros e resseguros não podem ser tratados apenas como atividades empresariais, mas como pilares estruturantes da economia moderna.
“Sem o resseguro, o sistema de seguros opera com uma perna quebrada. E sem um sistema de seguros sólido, a própria economia perde capacidade de resiliência”, declarou.
“Um mercado da ordem de R$ 30 bilhões (resseguros) é reduzido para o potencial que o Brasil possui. Precisamos pensar estratégias para ampliar o mercado de seguros, aumentar a contratação de resseguro e fortalecer a capacidade de proteção da economia como um todo”, acrescentou.
Octaviani ainda defendeu a construção coletiva das políticas públicas para o setor e ressaltou a importância do diálogo entre governo, reguladores e iniciativa privada. “A política pública precisa ser construída em ambiente democrático, com ampla participação dos diversos atores envolvidos. É assim que conseguimos criar soluções mais eficientes e duradouras para o país”, concluiu.

Capacidade, prevenção e cobertura
Karsten Steinmetz, CEO da Munich Re, lembrou que o mercado brasileiro tinha historicamente uma baixa exposição e isso mudou com o tempo. “Nos últimos cinco anos, a média de perdas seguradas foi cinco vezes maior do que a média das duas décadas anteriores. Hoje, a mudança climática no Brasil muda o perfil de risco de forma estrutural. O papel do resseguro permanece igual: temos que honrar e pagar os sinistros de forma rápida. No entanto, precisamos olhar capacidade e temas como prevenção e ampliação de cobertura”.
Segundo ele, o mercado não deve tratar a mudança climática como problema de preço e tem de buscar soluções sustentáveis.
José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), lembrou que os eventos extremos estão aumentando. “Já estamos sentindo os impactos e as consequências. Há graves problemas de secas e incêndios afetando a saúde. A ação humana amplifica os desastres e as mudanças climáticas também. Não podemos ser as vítimas pacíficas. Temos que reagir”.
“Precisamos criar uma visão comum do que é resiliência e como categorizar determinados ativos e atividades econômicas que estão mais resilientes”, comentou Aloísio Lopes, secretário Nacional de Mudança do Clima.
Para Lucca Rizzo, coordenador-geral de Pesquisa e Líder Especialista em Finanças Climáticas Sênior do iCS, o mercado de seguros pode ser uma grande fonte de dados de riscos climáticos. “O setor pode ser uma solução ao usar os seus modelos preditivos para alimentar as plataformas de monitoramento de risco climático”.
Outro ponto importante citado são as parcerias público-privadas para produzir a informação de risco climático.
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