O que estará entre as trends do seguro em 2026?

Mudanças climáticas, inteligência artificial, hiperpersonalização e operações de M&A estão entre as pautas do anoCarol Rodrigues O ano de 2026 será desafiador devido a algumas peculiaridades como a Copa do Mundo da FIFA e as eleições. No entanto, alguns temas estarão constantemente nas mesas de discussão e, em torno deles, orbitará a proteção securitária em…

Mudanças climáticas, inteligência artificial, hiperpersonalização e operações de M&A estão entre as pautas do ano
Carol Rodrigues

O ano de 2026 será desafiador devido a algumas peculiaridades como a Copa do Mundo da FIFA e as eleições. No entanto, alguns temas estarão constantemente nas mesas de discussão e, em torno deles, orbitará a proteção securitária em suas diversas modalidades.

Para Marcus Vinícius de Oliveira, CEO da Wiz Co., o debate em 2026 girará em torno de como redefinir o papel do seguro na vida das pessoas. “Não estamos mais falando apenas de digitalizar processos, mas de uma convergência profunda entre tecnologia e personalização. A inteligência artificial generativa é o tema central, mas agora como uma base operacional essencial. Ela está nas mesas de discussão porque é o que garante celeridade em fluxos críticos, como a subscrição, análise de risco e o processamento de sinistros, reduzindo custos e aumentando a precisão”.

Na visão de Oliveira, outro ponto fundamental é a gestão de dados unificada. “Com o amadurecimento do open insurance, a discussão foca em como usar esses dados para alimentar a hiperpersonalização, permitindo que as seguradoras antecipem necessidades e ofereçam coberturas que o cliente nem sequer havia previsto”, explica.

A agenda climática deixou de ser um tópico acessório de sustentabilidade para ocupar o centro da estratégia de negócio e gestão de capital. “Tudo isso converge para um único objetivo: como construir uma experiência omnichannel fluida, na qual o autoatendimento e o suporte humano coexistem para fortalecer o nosso novo ativo econômico: a confiança”, observa o CEO da Wiz.

Marcus Vinícius de Oliveira, CEO da Wiz Co.
Marcus Vinícius de Oliveira, CEO da Wiz Co.

Inclusive, Eduardo Takahashi, country leader da WTW, aponta que os impactos climáticos e os eventos extremos deixam de ser um risco periférico e passam a atuar como vetor central para múltiplas indústrias. “Enchentes, incêndios, vendavais e eventos súbitos afetam diretamente operações de infraestrutura, logística, recursos naturais e energia, exigindo uma abordagem mais pragmática sobre resiliência climática, adaptação de ativos e preparação para interrupções inesperadas”, analisa.

Segundo ele, a segurança energética e a transição energética também ganham espaço relevante. “O desafio não está apenas na migração para fontes renováveis, mas na convivência inevitável, no curto e médio prazo, entre matrizes tradicionais e emergentes. Esse equilíbrio impacta diretamente a continuidade dos negócios, o financiamento de projetos e a exposição a riscos regulatórios e operacionais”, comenta Takahashi.

Outro tema que se posiciona como estratégico é a agenda de crédito de carbono, que se consolida como tema estratégico, tanto no mercado regulado quanto no voluntário, trazendo oportunidades relevantes, mas também riscos jurídicos, operacionais e reputacionais que exigem governança e estruturação adequadas.

“Também cresce o interesse por soluções paramétricas, especialmente aplicadas a eventos climáticos e interrupções operacionais, como forma de acelerar indenizações, aumentar previsibilidade financeira e complementar os modelos tradicionais de seguro”, destaca o country leader da WTW.

Eduardo Takahashi, country leader da WTW
Eduardo Takahashi, country leader da WTW

Movimentos transversais

Para Genival de Souza Silva, estrategista, especializado no mercado de seguros e cofundador do Dhomo Instituto, os temas mais relevantes de 2026 não serão, necessariamente, os mais barulhentos. “Muitas das discussões decisivas acontecerão longe dos holofotes, dentro das próprias corretoras e dos grupos empresariais do setor”.

Um dos pontos centrais será a sustentabilidade do modelo de corretagem tradicional. “Não no sentido de ruptura ou fim do corretor, mas na revisão honesta de eficiência, posicionamento e função. A pergunta deixa de ser apenas ‘quanto vendemos’ e passa a ser ‘qual papel exercemos na decisão do cliente’”.

“Também se intensifica a discussão sobre interface com o cliente. Quem controla o relacionamento, a comunicação e a jornada passa a ter vantagem competitiva real, independentemente de quem emite a apólice. Esse fator redefine poder e relevância dentro do ecossistema”, acrescenta Silva.

Paralelamente, ele acredita que haverá uma aceleração do movimento de consolidação. “O mercado tende a ver mais operações de M&A envolvendo corretoras menores, maior abertura de franquias e um posicionamento cada vez mais estruturado dos grandes grupos de corretores”.

Para ele, a tecnologia segue presente nas conversas, mas com outro tom. “Menos encantamento e mais pragmatismo. A pergunta deixa de ser ‘qual ferramenta usar’ e passa a ser ‘qual modelo de negócio essa ferramenta sustenta’”.

Genival de Souza Silva, cofundador do Dhomo Instituto
Genival de Souza Silva, cofundador do Dhomo Instituto

Na análise de Takahashi, em 2026 o mercado de seguros tende a avançar menos pela expansão isolada de ramos e mais pela capacidade de responder às necessidades concretas das indústrias, em um ambiente onde decisões de investimento, financiamento e execução estão cada vez mais conectadas à gestão de riscos.

“O seguro passa a ser um dos mais importantes instrumentos de mitigação e transferência de riscos e deve ser estruturado a partir do negócio e da lógica operacional de cada setor, acompanhando movimentos estratégicos das empresas”, explica.

“A agenda de Private Equity e M&A, especialmente conectada à infraestrutura, volta a ganhar tração. Investidores buscam ativos resilientes e de longo prazo, o que amplia a demanda por avaliações aprofundadas de riscos operacionais, ambientais, regulatórios, reputacionais e de pessoas. Os seguros passam a ser utilizados de forma estratégica desde a due diligence até o pós-M&A, influenciando valuation, estrutura de financiamento e a integração dos ativos adquiridos”, sinaliza.

Dentre outros pontos, Takahashi ainda destaca o avanço da inteligência artificial e da digitalização intensiva, que tornam o risco cibernético mais latente e estratégico. “A expansão de data centers no Brasil, impulsionada pela demanda por IA, cloud e processamento de dados, atrai grandes investidores e traz novas exposições relacionadas à segurança da informação, continuidade energética, riscos operacionais e dependência de infraestrutura crítica”.

Nesse cenário, Takahashi aponta que os seguros cyber, os programas de responsabilidade e as soluções integradas de resiliência passam a ser componentes centrais dessas operações, especialmente quando combinados a projetos de energia renovável que buscam garantir estabilidade, eficiência e sustentabilidade no fornecimento energético.

Crescimento em 2026

Com as mudanças climáticas, a maior globalização dessas interconectividades das empresas, o seguro patrimonial, o risco operacional, o grande risco, o transporte, seguro de garantia, o cyber, na área de resseguro e na área de gestão de pessoas devem estar em alta, conforme o CEO da Acrisure Brasil, Thomas Menezes.

“As empresas precisam gerir talvez o maior patrimônio que elas têm, que são os colaboradores. Como é que ajudamos as empresas a estarem mais preparadas para lidar com todos esses desafios globais e locais. Temos muitas oportunidades para estar mais próximos dos nossos clientes”, completa o executivo.

Ao olhar para o cenário de 2026, Marcus Oliveira vê um mercado que projeta um crescimento sólido de 8%. “O grande protagonista deste ano é, sem dúvida, o seguro residencial e habitacional, que deve crescer acima de 10%. Esse movimento é puxado tanto pelo aquecimento do mercado imobiliário quanto por uma nova consciência do consumidor, que passou a ver a proteção do lar como prioridade após o aumento de eventos climáticos extremos”, justifica.

Além disso, Oliveira cita o amadurecimento do seguro de vida e de garantia, impulsionados por novas regulamentações e uma busca por segurança financeira a longo prazo. Mas, segundo ele, a grande transformação está na forma de distribuição: o seguro Embarcado (Embedded Insurance), que está em uma trajetória de alta acelerada. “Ele torna a proteção uma etapa quase invisível e extremamente conveniente ao ser integrado diretamente na compra de um celular ou de uma viagem. É a era do seguro ‘sob medida’, onde a precificação deixa de ser genérica e passa a ser ajustada ao comportamento real e aos riscos específicos de cada cliente”, ressalta.

Thomas Menezes, CEO da Acrisure Brasil
Thomas Menezes, CEO da Acrisure Brasil

Para Genival, em 2026, o crescimento não virá apenas da expansão natural do mercado, mas da reorganização das prioridades de proteção em um ambiente econômico mais instável e recorrente em crises. “Nesse contexto, ganham força os seguros que dialogam diretamente com renda, patrimônio e obrigações financeiras assumidas por pessoas e empresas”.

Há ainda um movimento silencioso, porém decisivo: seguros associados a crédito, financiamentos e contratos. “Sempre que existe uma obrigação financeira assumida, existe também um risco que precisa ser mitigado. O que muda em 2026 é a compreensão de que essa etapa não é externa ao trabalho do corretor: ela passa a ser parte do seu território natural de atuação”.

“Em síntese, 2026 favorece menos o corretor que persegue produtos isoladamente e mais aquele que entende como os riscos se reorganizam na vida real das pessoas e das empresas”, analisa o cofundador da Dhomo.

Cenário de desafios

“Nunca vivemos um momento com tantos desafios, não só no Brasil, mas em quase todas as partes do mundo. Os desafios são mais diversos, como econômicos, geopolíticos e de pessoas. Como lidamos com tudo isso no nosso dia a dia. Acho que, para frente, as empresas e as pessoas vão ter que estarem atentas a todos esses desafios e criar uma agenda positiva de prioridades; como é que me organizo e como eu me protejo para que possa lidar com todos esses desafios. Temos uma oportunidade enorme, pois quanto maior os desafios, maiores são os riscos”, analisa o CEO da Acrisure.

Por isso, ele destaca a importância de estar junto a um parceiro que possa ajudar a gerenciar, a equacionar e dar uma prioridade para tudo isso. “Uma companhia como a Acrisure é muito importante e vai ter um papel fundamental, com muita transparência, com muito respeito, com muita lealdade aos nossos clientes, parceiros e amigos”.

Para o CEO da Wiz, o desafio deste ano é gerir o relacionamento com públicos de perfis tão distintos em um ambiente altamente automatizado. “Temos a geração Z, que é digital e imediatista. Para eles, qualquer fricção no processo é fatal; uma experiência digital ruim não gera uma reclamação, gera um ‘abandono silencioso’ e o churn imediato. Eles querem velocidade, mobile e burocracia zero. Por outro lado, temos o Público 50+, que possui maior poder aquisitivo e uma visão patrimonial, mas que é altamente sensível à confiança. Eles valorizam a clareza, odeiam vendas agressivas e têm uma preocupação legítima com a segurança de dados e fraudes”, explica Marcus Vinicius, para quem o ponto de atenção é garantir que a tecnologia gere proteção e não tensão para esse cliente.

Takahashi chama a atenção para a aplicação prática da Nova Lei do Seguro, nº 15.040/24 e o impacto direto que ela terá na forma como as empresas estruturam, negociam e gerenciam seus programas de riscos. “A nova legislação exige maior clareza contratual, definição objetiva de coberturas, exclusões e responsabilidades, elevando significativamente o nível técnico das contratações. Para as empresas, isso significa menos espaço para interpretações ambíguas e maior necessidade de planejamento, simulação de cenários e alinhamento prévio entre as áreas de risco, jurídica, financeira e operacional”.

Nos seguros de responsabilidade, decisões como a alocação de limites entre custos de defesa e indenizações deixam de ser um detalhe contratual e passam a influenciar diretamente a eficácia do programa no momento do sinistro.

“Em projetos estruturados, infraestrutura e operações financiadas, a atenção à redação das apólices e às condições de garantia tornam-se decisivas para evitar impactos em cronogramas, financiamentos e compromissos contratuais”, diz o executivo da WTW, para quem a nova lei reforça uma mudança de postura no mercado. Afinal, empresas que tratam o seguro de forma estratégica, com antecedência e conhecimento técnico, tendem a ganhar eficiência, previsibilidade e segurança jurídica.

Em que o corretor não pode deixar de investir

Segundo Genival Souza, do Dhomo Instittuto, um investimento inadiável para o corretor em 2026, não está, necessariamente, em produtos ou plataformas.

“Estaria em clareza estratégica sobre o próprio negócio. Isso começa por uma leitura qualificada da carteira: entender concentração, faixa etária, dependência de ramos específicos e riscos futuros. O segundo ponto é o fortalecimento da capacidade consultiva real. Fazer perguntas melhores, interpretar contexto e orientar decisões complexas. Não se trata de discurso, mas de método aplicado no atendimento diário”.

Além disso, também em um ponto mais negligenciado, o investimento em posicionamento. Não como slogan ou discurso institucional, mas como orientação prática de decisão. “Posicionamento é o que define quais clientes priorizar, quais riscos saber ler melhor, quais produtos fazem sentido para a carteira e, principalmente, quais não fazem. Em 2026, posicionamento deixa de ser um conceito abstrato e passa a ser filtro operacional. É ele que orienta onde investir tempo, energia e atenção: os ativos mais escassos do corretor moderno”, sintetiza aos corretores.

Conteúdo da edição de janeiro/fevereiro (283) da Revista Cobertura

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