Parceria público-privada é caminho para cobertura dos riscos catastróficos no Brasil

Mercado mantém proposta de seguro social de catástrofe no país, que ainda tem o desafio da baixa penetração do seguro; parceria entre o sindicato das seguradoras e a prefeitura de SP é vista como um modelo importante Todo grande evento gera uma mudança de mindset. No Reino Unido, foram as grandes enchentes de 2007 que,…

Mercado mantém proposta de seguro social de catástrofe no país, que ainda tem o desafio da baixa penetração do seguro; parceria entre o sindicato das seguradoras e a prefeitura de SP é vista como um modelo importante

Todo grande evento gera uma mudança de mindset. No Reino Unido, foram as grandes enchentes de 2007 que, inclusive, simbolizaram um movimento catalisador que criou a Flood Re. No Brasil, já observamos as chuvas devastadoras na região do Rio Grande do Sul em 2024 como um divisor de águas.

Desde então, a Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg) tem trabalhado para posicionar o mercado segurador como um setor que integra a parte da solução da questão climática.

“Quando falamos de enchentes no Reino Unido, falamos de uma realidade muito diferente daquela observada no Brasil. Aqui, lidamos normalmente com transbordamento de riso, ultrapassagem de barreiras de contenção e, ocasionalmente, avanço do mar“, pontua o CEO da Flood Re, Perry Thomas.

No Reino Unido, assim como em boa parte da Europa, o sistema de drenagem pluvial é integrado ao sistema de esgoto. Tudo o que foi atingido precisa ser tratado como material contaminado e potencialmente perigoso à saúde.

A Agência Ambiental do Reino Unido emitiu cerca de 300 mil alertas de enchente.  “Porém, apenas algumas centenas resultaram efetivamente em inundações”.

Cultura do seguro

Conforme Thomas, o Flood Re só funciona porque o Reino Unido já possui um mercado de seguros desenvolvido, com penetração próxima a 90% dos imóveis. “No caso britânico, o problema não é a falta de seguro, mas sim um grupo pequeno de propriedades que se tornou caro demais para segurar por causa do risco de enchentes”.

Isso revela que, resolver a baixa penetração do seguro no Brasil é uma questão que antecede as soluções para enchentes, já que poucas pessoas ainda contratam a proteção, independentemente de sua área de risco. Estima-se que entre 20% e 30% das residências no país possuam seguro.

“Antes de criar um mecanismo sofisticado de resseguro ou um fundo semelhante ao Flood Re, é preciso ampliar a base de segurados”.

Dyogo Oliveira, presidente da Confederação Nacional das Seguradoras (CNseg), entidade que promove uma agenda junto à delegação do mercado de seguros brasileiro que está em Londres.

“Não é um modelo que pode ser replicado no Brasil porque temos uma base de menos de 20% das residências seguradas. Precisamos de um modelo adaptado à realidade brasileira. O que fica como lição é o modelo de parceria público-privada, essencial para lidar com riscos catastróficos, além da importância de ampliar a base e ter uma diversificação, em que o governo assume uma parte do risco e o setor privado assume a outra parte”, descreve Oliveira.

O caminho brasileiro

Pedro Farme, CEO da Guy Carpenter, acredita que o mercado brasileiro de seguros pode seguir o caminho da parceria público-privada. “O Brasil tem um mercado de seguros desenvolvido, muito capital e tecnologia para apoiar esse tipo de risco. Para que a cobertura seja pulverizada a todas as apólices residenciais e aumente a penetração de seguro, a parceria público-privada será fundamental”.

Inclusive, a parceria entre o Sindicato das Seguradoras e Prefeitura de São Paulo, selada em 12 de junho, é um bom exemplo. “A prefeitura tem uma capacidade de geração de dados ímpar e nos apoiou na criação do relatório. “Agora inicia-se o período de uso”, diz Farme sobre a ferramenta desenhada pela Guy Carpenter.

O presidente da CNseg indica que as soluções para o Brasil tendem a ser diferentes do que foi adotado no Reino Unido. É possível que nos aproximemos de modelos mais agregados, como os casos do México e do Caribe, em que eles fazem um risco paramétrico geral para o país, estado ou cidade, em que se atende basicamente à infraestrutura dos países”.

No Brasil, já foi apresentada a discussão para o seguro social de catástrofe, que é uma proteção direcionada para as pessoas mais afetadas.

“As discussões no Brasil estão em andamento em diversas frentes. O papel do mercado de seguros tem sido no sentido de estabelecer as discussões, gerar o debate e provocar o próprio governo para que compreenda que precisa tratar o problema. “Enchente no Brasil é algo muito mais sério do que no Reino Unido”, conclui Oliveira.

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