Levantamento da PUC-SP, que analisou seguradoras responsáveis por 80,8% dos prêmios emitidos no país, mostra como algoritmos vêm transformando a avaliação de risco no mercado segurador
Durante décadas, contratar um seguro de vida no Brasil dependia de um processo quase sempre igual: questionários extensos, exames médicos, análise documental e o parecer final de um especialista. Esse modelo começou a mudar. Um levantamento acadêmico da PUC-SP que analisou 30 seguradoras, responsáveis por 80,8% dos prêmios emitidos no país, identificou que o uso de inteligência artificial na subscrição já é predominante no setor, concentrado em automação de processos, leitura de documentos e avaliação de risco.
O movimento acompanha uma transformação mais ampla do mercado segurador. Segundo a CNseg, companhias mais avançadas na adoção de IA já registram reduções de 30% a 50% no tempo de processamento de sinistros, atendimento ao cliente e análise documental. Mas a principal mudança vai além da eficiência operacional. A etapa mais sensível da contratação de um seguro, avaliar o risco de cada pessoa e definir em quais condições ela pode ser segurada, passou a combinar conhecimento técnico humano com modelos preditivos capazes de processar milhares de variáveis simultaneamente.
O fenômeno é particularmente relevante em um segmento ainda pouco explorado no país. Segundo dados da Fenaprevi e da Susep, apenas 18% da população brasileira possui seguro de vida. Para especialistas do setor, a digitalização da subscrição tem potencial para ampliar esse acesso ao reduzir barreiras operacionais, acelerar análises e permitir avaliações mais precisas dos diferentes perfis de risco.
Entre as empresas que adotaram esse modelo está a Azos, insurtech especializada em seguro de vida. A companhia utiliza o Fred, sistema proprietário de inteligência artificial responsável por apoiar a análise de risco e automatizar parte do processo de subscrição. Atualmente, cerca de 22% das apólices são aprovadas em segundos, pretendendo chegar em 40% até o final do ano, a tecnologia permite a emissão de apólices com cobertura de até R$5 milhões sem exigência de exames médicos para determinados perfis.
“Durante muito tempo, a análise de risco foi baseada em processos padronizados e na capacidade humana de interpretar informações. Hoje, a tecnologia permite avaliar um volume muito maior de variáveis em poucos segundos, tornando a análise mais precisa e aderente à realidade de cada cliente. O ganho não está apenas na velocidade, mas na capacidade de compreender melhor o risco individual de cada perfil”, afirma André Calazans, Diretor de Subscrição e Sinistros da Azos.
A evolução da inteligência artificial também tem ampliado a capacidade das seguradoras de trabalhar com modelos mais personalizados. Em vez de depender exclusivamente de critérios tradicionais, as companhias passaram a combinar diferentes fontes de dados para construir avaliações mais refinadas, permitindo decisões mais consistentes ao longo da jornada de contratação.
Ao mesmo tempo, o avanço da tecnologia traz novos desafios para o setor. À medida que algoritmos passam a participar de decisões cada vez mais relevantes, cresce a necessidade de mecanismos de supervisão, governança e transparência capazes de garantir que esses modelos operem de forma responsável e auditável.
“Existe uma percepção equivocada de que inteligência artificial significa substituir pessoas. Na prática, os melhores resultados surgem quando tecnologia e conhecimento humano trabalham juntos. A IA amplia a capacidade de análise e torna processos mais eficientes, mas a responsabilidade pelas decisões continua sendo das pessoas e das estruturas de governança das companhias”, afirma Calazans.
A transformação não se limita à subscrição. Segundo estudo da CNseg em parceria com a EY, 80% das seguradoras brasileiras já utilizam alguma solução de inteligência artificial em suas operações. O uso da tecnologia já alcança áreas como atendimento, monitoramento de qualidade, retenção de clientes e suporte aos corretores, consolidando um movimento que vem redesenhando a operação do mercado segurador como um todo.
“Nos próximos anos, a discussão não será mais sobre adotar ou não inteligência artificial. A tecnologia já faz parte da realidade do mercado. O desafio passa a ser como utilizar esses recursos de forma responsável, transparente e capaz de ampliar o acesso à proteção financeira sem abrir mão da qualidade técnica das decisões. Esse equilíbrio entre inovação e confiança será um dos principais diferenciais das seguradoras daqui para frente”, conclui André Calazans.
FONTE: NR7
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